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Catando o arquivo atrás de convites de memes não-respondidos, achei um bem legal, cortesia do Digital Drops: Os Livros de Minha Vida. Assim como as séries, é muito, muito complicado resumir uma vida de leitura em cinco exemplos escolhidos, mas vamos lá.
1 - A Ponte para o Sempre - Richard Bach
Dick Bach é um sujeito complicado. Ele teve uma vida de aventuras, enriqueceu e empobreceu com seus livros, e através dele tive a primeira ideia de que poderia ganhar a vida escrevendo. Depois de alguns anos descobri que ele a visão de si mesmo que ele colocava em seus livros era um tanto idealizada. Mesmo assim continuei gostando do que ele escrevia, e A Ponte Para o Sempre é o livro que mais consegui me identificar. A idéia de narrar a própria vida é algo que me atraiu, e a diferença de um bom escritor para um mau escritor é que o bom consegue tornar atraente mesmo coisas simples como passar geléia em uma torrada. Ou consegue criar conversas com si mesmo sem parecer esquizofrênico.
`This is a story about a knight who was dying, and the princess who saved his life. It’s a story about beauty and beasts and spells and fortresses, about death-powers that seem and life-powers that are. It’s a tale of the one adventure that matters most, I think, in any age.’
Este livro me ajudou muito, mas não é um livro de auto-ajuda. É um livro que mostra como uma história comum pode se tornar a História de Uma Vida. Eu sempre pensei em escrever um livro assim. Algum tempo atrás eu comecei. Como terminará? Se eu soubesse perderia a graça.
2 - Belas Maldições - Neil Gaiman e Terry Pratchett
Deus, Apocalipse, Anjos, Demônios, caçadores de vampiros, um Bentley com um player onde todas as fitas em 15 dias se transformavam em Bohemia Rhapsody, do Queen, o Anticristo, a Ordem das Freiras Faladeiras e uma bruxa cujas previsões eram absurdamente precisas, e por isso mesmo ninguém dava bola. “Não comprarás Betamax”, era uma delas. Belas Maldições é um dos livros mais divertidos que já li, e absolutamente herético, por isso mesmo melhor ainda. Sem contar que com este livro descobri que o Telemarketing realmente é invenção do Demônio.
Em uma parte Gaiman está descrevendo o escritório de Crowley, um demônio que prefere viver na Terra, e quando fala do computador, o compara a um Porsche com uma tela, e continua:
Os manuais ainda estavam em seus saquinhos transparentes, junto com a garantia-padrão que dizia que se a máquina 1) não funcionasse, 2) não fizesse o que os anúncios caros diziam, 3 ) eletrocutasse a vizinhança imediata, 4) e na verdade falhasse inteiramente em estar dentro da caixa caríssima quando você a abrisse, isso expressa, absoluta e implicitamente, não seria em momento algum culpa ou responsabilidade do fabricante, que o comprador deveria se considerar afortunado ao se permitir dar seu dinheiro ao fabricante, e que qualquer tentativa de tratar o que havia acabado de ser pago como propriedade da pessoa que o adquiriu resultaria na atenção de homens sérios com maletas ameaçadoras. Crowley havia ficado extremamente impressionado com as garantias oferecias pela Indústria de Informática, e na verdade até enviara um pacote para Baixo, para o departamento que fazia os acordos de Almas Imortais, com um memorando amarelo anexo dizendo apenas: “Aprendam, caras”.
3 - O Enigma de Andrômeda- Michael Crichton
Que tal um livro que te deixa com medo, tenso e desesperado para virar cada página? Crichton consegue isso. O Enigma de Andrômeda é escrito como um thriller. Me deu muito mais pesadelos que qualquer filme do Freddy Krueger. Também é um livro estilo “caça-paraquedistas”, cheio de transcrições de documentos “oficiais”. Quando foi lançado aposto que muita gente morder a isca.
O grande talento do escritor aqui está em contar uma história repleta de suspense, sem perseguições de carro, tiroteios ou similares. É um filme sobre uma doença alienígena, onde os protagonistas são cientistas. E de verdade, não a física nuclear interpretada por Denise Richards naquele James Bond.
4 - O Fã-Clube - Irwin Wallace
Eu descobri esse livro em alguma casa de praia, daquelas que a gente vai visitar quando é criança e depois nem lembra de quem era. Em uma época onde o máximo de literatura erótica disponível era o Fórum da Ele&Ela, achar essa peça do Irwin Wallace foi uma grata surpresa. Havia uma história (ok, um fiapo, ao menos) por trás da sacanagem, e lembrando da história percebo que o autor foi bem ousado. Basicamente um grupo de desqualificados sequestra uma estrela de cinema e, digamos assim, abusam dela de todas as formas. Aos poucos ela vai tomando o controle da situação, colocando uns contra os outros. Foi bem melhor que os livros da Erica Jong ou do Henry Miller, e ainda tinha o contraditório cenário de uma personagem sequestrada, amarrada, abusada que no fundo estava em uma posição de poder. Foi a primeira vez que tive noção que relacionamentos podem ser bem mais complicados do que os livrinhos da escola dominical davam a entender.
Pena que nunca fizeram um filme.
5 - Os 12 Césares - Suetonius
Você sabia que Augustus saía uma vez por ano vestido de mendigo pelas ruas de Roma, e que gostava da expressão “mais rápido que cozinha aspargos”? Esses detalhes todos estão no livro de Suetonius Tranquilus, se isso parece nome saído daquele desenho “Os Muzzarelas”, acredite, era assim que se chamavam. Nascido entre 69 e 75 DC, quase 2000 anos depois o texto é altamente informativo, divertido, repleto de informações que humanizam esses vultos históricos.
Levando-se em conta que um post de um blog miguxo já é impossível de ser lido, e que a maioria dos espectadores de hoje não conseguem assistir um filme do começo do século, a idéia de um texto tão antigo ser de leitura fácil, interessante e atrativo mostra o quanto Suetonius era bom escritor, e o quanto as pessoas, em sua essência, não mudaram praticamente nada.
Para alguém que escreve, a idéia de que é possível escrever algo que dure quase dois milênios, que se feito hoje, no ano 4000 ainda falarão de você é fascinante. Em tempos efêmeros, quando a maior parte da nossa produção cultural é decartável, ver autores vivos disputando leitores com um morto no início de nossa Era.
Sem contar que estamos falando de um sujeito que escreveu a obra, infelizmente perdida, “Vidas das Putas Famosas”. Daria tudo para ler esse livro.

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