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O Gustavo me convidou para um meme diferente. Ele quer saber quem são meus Mestres. Eu sei, boa parte dos leitores vai dizer “Satã”, mas vamos tentar ser mais criativos que isso.
A idéia é falar das pessoas que nos influenciaram, que foram importantes e ajudaram a moldar nosso caráter e personalidade. Eu gostei, mas pensando bem, não sei se seria legal colocar isso em termos de pessoas. Pensando bem mesmo, os maiores exemplos, os maiores ideais e as mais inspiradoras mensagens que vi, vieram de personagens de ficção. (não, não estou falando de Jesus).
O que, de forma alguma, as torna menores, ou seus exemplos menos significativos. Em geral são frases, ações, raramente o sujeito leva uma vida inteira de exemplos, afinal, embora ficcionais, também são humanos. (ok, nem todos) Portanto, vamos a meus Mestres…
O Dr Jones sempre pareceu, superficialmente, um aventureiro atrás de dinheiro fácil, mas ele se esforçou pra salvar Short Round, odiava nazistas gratuitamente (se é que isso é possível) e seu lema, “Fortuna e Glória” sempre foi balanceado pelo rígido código moral aprendido de seu pai. Seus maiores clientes eram museus, não colecionadores particulares. Quando no Palácio Pankot, se preocupou em libertar as crianças escravizadas pelo Marajá, e devolver a pedra Sankara ao vilarejo, não com seu valor de mercado.
Indy me ensinou que ambição pode ser positivo, se você tiver limites. Se não estiver disposto a TUDO por seu objetivo, mas ao mesmo tempo estiver disposto a TUDO pelo que acredita.
Ele também me ensinou algo muito importante, uma lição que ele mesmo aprendeu, no começo da Última Cruzada: Ao brigar para conseguir recuperar a Cruz de Coronado de um grupo de ladrões de túmulos, só para tê-la tirada de suas mãos e devolvida aos bandidos, ele olha com uma cara raivosa para um dos ladrões, que retira seu chapéu, coloca-o na cabeça do jovem Henry Jones Jr, e diz: “Você perdeu hoje, garoto, mas não quer dizer que você tenha que gostar disso”.
Eu odeio perder. Nunca me dei bem com derrotas, até essa cena. Percebi que não há nada de errado em ficar puto com uma derrota, e é melhor assimilá-la do que ficar remoendo. Ao mesmo tempo, posso por de lado aquela coisa polyanna, de seja bonzinho, dê a outra face, etc. Você pode SIM se emputecer quando perde. Pode se alimentar disso, só não dá pra transformar em dieta diária.
Não o chame de mestre. Ele é apenas um faxineiro. (claro, o Vira-Latas também era, e Steven Seagal era só um cozinheiro)
Miyagi me ensinou que não é preciso ser um bully, nem ser um cordeiro. É possível se impor trilhando o Caminho do Meio. Para um xintoísta ele se saiu um excelente mestre Zen. Em uma época de colégio onde todo mundo que não fosse brigão era vítima, consegui ficar fora de vista por um bom tempo, mas eu sabia que se fosse preciso brigar, eu brigaria. Pacifismo não significava submissão, Miyagi ensinou-me que eu poderia dobrar, como os juncos, mas voltaria, ao final da tempestade. Ou foi O Velho Moinho, da Disney, que me ensinou isso? Não sei.
Só sei que consegui ficar sem brigar, deixando os bullies acharem que me controlavam, mas impondo os meus limites. Nunca me roubaram dinheiro do lanche, por exemplo. Uma vez, entretanto, em um dia/semana/ano especialmente ruim, um deles cismou de implicar. Eu queria entrar na sala, depois do recreio, e o sujeito estava fechando o corredor entre duas fileiras de carteiras, sentado na cadeira, inclinado, com as pernas na cadeira da outra fileira.
“Estou descansando”
“Cara, deixa eu passar”
“Agora não.”
Eu olhei para a cadeira onde ele sentava. Só as pernas traseiras davam o equilíbrio. Equilíbrio, Daniel-san. Tudo é equilíbrio.
“putaquepariueuqueropassarPORRA!” e meti o pé na cadeira. Ele imediatamente perdeu o equilíbrio, foi a chão, entre as duas mesas, que não aguentaram quando ele tentou se segurar. Continuei chutando até o Inspetor chegar. Ele olhou, reconheceu os envolvidos, estranhou o valentão estão apanhando. Perguntou se havia algo errado. Respondi que não, fui para a carteira. Depois disso, o valentão nunca mais chegou perto. Poderia ter continuado com sua ilusão de poder, se não tivesse testado meus limites. Mas ele estava ocupado demais jogando vôlei para assistir Karate Kid.
Ei, não era pra ser ficção?
OK, sejamos realistas. Eu adoro Richard Bach, ele foi um dos maiores incentivos que tive para começar a escrever, mas hoje posso dizer que quase tudo que li dele, que toda sua vida que acompanhei, as décadas com suas aventuras conhecendo Donald Shimoda, suas aventuras transcontinentais quando se apaixonou por Leslie Parrish, sua busca por uma alma gêmea, era tudo ficção.
Humm talvez não exatamente ficção, mas realidade embelezada. É justo. Quando escrever minha autobiografia qualquer coisa menos épica que o livro do Bilbo será vetada. Claro, Bach exagera. Ele simplesmente OMITIU de seus livros o primeiro casamento (só cita a esposa em UMA ou duas linhas) e também não toca no assunto de que teve SEIS FILHOS no primeiro casamento.
Uns podem dizer que é canalhice, outros podem concordar, mas do ponto de vista do texto, ele não deixou a realidade atrapalhar uma história semi-biográfica que estava ficando boa. Ele colocou a realidade em seu devido lugar, antecipando a Wikipedia em mais de 30 anos.
O que ele fez foi colocar a literatura em primeiro lugar. Enquanto me ensinava que era possível SIM viver de escrever, nunca enganando, nunca se fingindo de empreendedor e vendendo a idéia de que dá pra ficar rico facilmente (embora ele TENHA ficado rico) e se orgulhando de suas cartas de rejeição. Bach é uma personalidade complexa, não é nem de longe tão bonzinho quanto a maioria dos fãs (e ele mesmo) o imagina.
Pode até parecer óbvio hoje, mas para uma criança de 9 ou 10 anos, Yoda soa profundo e verdadeiro. Aliás, continua soando profundo e verdadeiro, e fico feliz de ter ouvido o pequeno e verde mestre (não o Caco) quando tinha essa idade, ao invés de Hitler, Chavez ou outro maluco qualquer.
“[Luke:] I can’t believe it. [Yoda:] That is why you fail.”
“Size matters not, … Look at me. Judge me by size, do you?”
“Do or do not… there is no try.”
“Ohhh. Great warrior.Wars not make one great.”
“Yes, a Jedi’s strength flows from the Force. But beware of the dark side. Anger, fear, aggression; the dark side of the Force are they. Easily they flow, quick to join you in a fight. If once you start down the dark path, forever will it dominate your destiny, consume you it will, as it did Obi-Wan’s apprentice.”
Há muitos, muitos outros, mas eu não quero continuar agora, pois iria esvaziar um post que estou pra fazer faz tempo. Aguardem então, e quem quiser participar deste meme, ele é totalmente aberto, visite o site do Gustavo e siga as instruções.





4 responses so far ↓
Gustavo Gitti // Oct 16, 2007 at 12:36 pm
Sensacional, Cardoso! Miyagi e Richard Bach foram grandes inspirações em um período da minha vida. Muito legal relembrá-los!
Valeu pelo post! Vou inserir você no meu post original e linkar pra cá.
Abraço!
Meus Mestres (de música, relacionamento, filosofia, espiritualidade e sexo) - Atualizado pela 6a. vez! — Não Dois, Não Um // Oct 17, 2007 at 9:06 am
[...] vários, mas o que mais leio é seu Contraditorium (fora suas colaborações para o Meio Bit). Em seu post sobre mestres, ele fez algo muito legal: descreveu pessoas da ficção. Ora, nosso mundo é tão ilusório quanto [...]
Lucas // Oct 21, 2007 at 12:24 pm
Então é daí que vem o “Fortune and glory, kid”? OMG. Eu vi os três Indianas e não reparei.
Nando // Jan 9, 2008 at 4:32 pm
Dentre os meus mestres compartilho com você o Dr. Jones e o Sr. Miyagi. Também sempre carreguei comigo coisas que aprendi com os dois.
O Obi-Wan sempre me inspirou mais do que o Yoda e o Richard Bach, infelizmente, nunca li nada dele.
P.s.: Faz tempo que não entra nada de novo nesse blog. Sem tempo pra memes?
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